Coragem: a virtude que não se treina na academia
- Breno Flegner

- 4 de ago.
- 4 min de leitura
Estive pensando sobre as virtudes apresentadas por Fiore dei Liberi, Johannes Liechtenauer e tantos outros mestres de armas. Apesar de viverem em épocas e lugares diferentes, todos parecem convergir para as mesmas qualidades essenciais de um bom combatente: velocidade, distância, força e coragem.
(assista esse pequeno vídeo:https://www.instagram.com/reel/DZXsjUHt30E/)
Velocidade é relativamente fácil de trabalhar. Basta um bom treinamento de pliometria, exercícios explosivos, afundos, deslocamentos rápidos e muita repetição. Força? Também sabemos como desenvolver. Agachamentos, levantamento de peso, exercícios de hipertrofia e fortalecimento geral do corpo resolvem muito bem essa parte. Distância (ou medida)? Alguns meses treinando com um parceiro já começam a desenvolver essa percepção. Aos poucos você aprende intuitivamente onde sua arma alcança, onde a do adversário alcança e como controlar esse espaço.
Mas... e a coragem?
Como se treina algo que não pode ser colocado em uma planilha? Como medir uma virtude que não pode ser contada em quilos, segundos ou repetições?
A coragem é uma virtude e um atributo intangível e, justamente por isso, talvez seja a mais difícil de desenvolver. Pior ainda: ela é desvirtuada do seu significado original. Costumamos associá-la apenas a grandes atos heroicos, quando, na verdade, sua origem é muito mais interessante. Encontrei uma definição que achei fantástica:
Em latim, coraticum tinha o mesmo significado de coragem. A pessoa corajosa não se esconde, mas enfrenta os desafios e os medos com a ajuda de sua força interior.A palavra deriva da raiz cor, que significa "coração". Para os romanos, o coração não era apenas um órgão, mas a sede das emoções, da inteligência, da vontade e da própria alma. Assim como o coração dá vida ao corpo, a mente e a vontade dão vida à existência.A coragem estava relacionada ao coração porque exige um "coração forte": ânimo, firmeza e força de vontade para superar o medo e enfrentar as dificuldades.Com o tempo, coraticum tornou-se "coragem". O sufixo latino -aticum foi substituído pelo português -agem, indicando ação. Em outras palavras, coragem significa literalmente "a ação do coração".
Interessante, não?
Não é por acaso que, em A Flor da Batalha, escrita por volta de 1409, Fiore dei Liberi representa a virtude da coragem através de um leão segurando um coração. Não uma espada. Não um escudo. Não uma lança. Um coração. É uma imagem poderosa. Fiore parece nos lembrar que nenhuma técnica é suficiente se faltar disposição para colocá-la em prática. Na HEMA isso aparece o tempo todo:
É preciso coragem para atacar quando existe a possibilidade de ser atingido.
É preciso coragem para confiar na técnica em vez de simplesmente recuar.
É preciso coragem para entrar em um torneio sabendo que você pode perder.
Também é preciso coragem para admitir que sua guarda está errada, que seu golpe precisa ser reconstruído ou que você terá de reaprender algo do zero. Mas acho que limitar a coragem apenas ao combate seria compreender apenas metade do ensinamento dos antigos mestres. O verdadeiro treinamento começa muito antes de vestir uma máscara de esgrima. Ele acontece quando o professor pede um voluntário para demonstrar uma técnica e você decide levantar a mão. Quando ele faz uma pergunta e você sabe a resposta, mas a timidez tenta engolir sua vontade de falar. Quando você vê uma senhora precisando atravessar a rua e sente aquela pequena luta interna entre ajudar ou simplesmente fingir que não viu. Quando percebe que está preso a um vício. Quando entende que precisa mudar algum hábito da sua vida. Quando decide sair da zona de conforto. Tudo isso exige uma coragem absurda. Exige morver-se de um lugar. Exige movimento (muita atenção aqui, querido leitor).
Seu coração, na maior parte das vezes, sabe qual é a atitude correta. O difícil é agir. É claro que essa coragem precisa caminhar junto com o discernimento. O coração pode nos impulsionar para muitas direções, mas cabe à razão orientar esse impulso para o bem. (veja esse post sobre as virtudes da esgrima segundo Ridolfo Capoferro:
(http://youtube.com/post/UgkxW0x310HJQLeiVNApv1UW2NQCoryKlg0W?si=MBk21p6IMhZL0N5R)
Tenha coragem para fazer aquilo que é bom para você (especialmente de saúde física e mental). Depois, tenha coragem para fazer aquilo que também é bom para o próximo. Nem que seja apenas através do seu exemplo. Perceba uma coisa interessante: coragem é movimento. Coragem é ação. Coragem é frequência.
Ela não é um único momento de bravura romântica digno de um filme medieval. Ela é construída em centenas de pequenas decisões tomadas todos os dias. É justamente aí que vejo uma conexão incrível com Liechtenauer. Nos Zettel, encontramos a expressão frequentus motus, ou seja, movimento frequente. Não permaneça parado! Não viva na hesitação! Tome continuamente a iniciativa!
Isso conversa diretamente com outro conceito central da tradição germânica: o Vor. Quem toma a iniciativa obriga o adversário a responder. Quem hesita entrega o combate ao outro. Mas essa ideia não serve apenas para a espada. Ela serve para a vida. Tenha iniciativa para estudar. Tenha iniciativa para treinar (tá vendo só? seus pais estavam ensinando você a ser uma criança corajosa, mas eles só não usavam essa palavra kkkk). Tenha iniciativa para pedir desculpas. Tenha iniciativa para começar aquele projeto. Tenha iniciativa para abandonar um vício. Tenha iniciativa para ajudar alguém. Não espere sentir coragem para agir.
Aja! Atue! Porque a coragem nasce justamente da ação repetida, da disciplina. Quanto mais você pratica pequenos atos de coragem, mais forte seu coração se torna. Existe outra expressão em latim de que gosto muito:
Age quod agis.
"Faça o que está fazendo." Esteja inteiro naquilo que decidiu fazer. Se for estudar, estude de verdade. Se for treinar, treine de verdade. Se for ajudar alguém, ajude de verdade. Se decidiu mudar de vida, comece.
No fim das contas, talvez seja essa a grande lição dos antigos mestres. Velocidade pode ser treinada. Força pode ser construída. Distância pode ser aperfeiçoada. Mas a coragem...
A coragem é uma escolha. Uma escolha feita todos os dias. Em cada pequena ação. Porque, antes de vencer um adversário, precisamos vencer a nós mesmos. Talvez seja exatamente por isso que Fiore colocou um coração nas mãos do leão?
A espada apenas revela e lapida aquilo que, há muito tempo, já existia dentro você.




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